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Sexta-feira, Julho 29

Lagoa
Para aquele que não foi; àquela que não pôde ser

Vê os remadores? Correm, digo, remam. E sabes para quê? Remam na superfície da Lagoa, competindo em seu espelho, sem saber o que passa dentro dela. Todo dia, remam os remadores, na água da Lagoa, sem saber o que se passa abaixo de seus cascos. Sabes para quê competem? Para onde correm? Disso eu não entendo muito bem... Vim com a modéstia dos perdedores. Mas não se antecipe em ilusões. Isso, de correr na superfície, não me interessa. Da Lagoa eu não teria mesmo o que desejo, pois tenho medo dos mergulhos em águas muito turvas.

A Lagoa é dos remadores tanto quanto minha, embora eu não me atreva a lhe tomar um copo d¿água. A Lagoa é minha, mesmo que somente ao inaugurar das quatro estações do ano, Muda-Solidão-Esperança-Vida, eu a veja. Mesmo que eu não a veja nunca. Nunca mais. A Lagoa é do homem que a vê. A Lagoa não se move. A Lagoa é do jeito que se vê. A Lagoa é dos moleques do sinal, que nem a notam bela. A Lagoa é dos colecionadores de memorandos sobre sua despoluição, que não acontecerá nunca; A Lagoa, mulher dadivosa, não pede por pureza.

(Isso de acreditar em pureza; isso de acreditar em verdades; isso de verbalizar o que não pode ser dito; isso de querer preencher espaços definidos; isso que acontece com água da torneira tratada e purificada pela cedae; Issos não acontecem com águas de mares, lagoas, rios, mangues ou cachoeiras.)

- Isso de compreensão de obviedades que tenho, é o que me permite, num lindo dia de sol, pedalar livremente bem perto da Lagoa. Confortavelmente junto ao silêncio dos que não querem nada além da vista.

escrito por Paula 11:12 AM| |

Quinta-feira, Julho 28

Abre os teus armários. Eu estou a te esperar para ver deitar o sol sobre os teus braços castos. Cobre a culpa vã ... até amanhã eu vou ficar e fazer do teu sorriso um abrigo.

Canta que é no canto que eu vou chegar. Canta o teu encanto que é pra me encantar. Canta para mim, qualquer coisa assim sobre você.Que explique a minha paz. Tristeza nunca mais.

Vale o meu pranto que esse canto em solidão. Nessa espera o mundo gira em linhas tortas. Abre essa janela, a primavera quer entrar pra fazer da nossa voz uma só nota.

Canto que é de canto que eu vou chegar. Canto e toco um tanto que é pra te encantar. Canto para mim qualquer coisa assim sobre você que explique a minha paz. Tristeza nunca mais.

(Casa pré-fabricada - Marcelo camelo)

Na voz da Roberta Sá, pode ser?

escrito por Paula 12:10 PM| |

Quarta-feira, Julho 27

[...]
Rima rara, de cara.
Acende a noite da Guanabara.
Põe um sorriso na minha cara.
escrito por Paula 2:10 PM| |

Numa caixa ou no Saco do céu

Viver para mim ainda é escravidão à puberdade. Antes as leis dos homens, a maioridade. Hoje maturar-se emocionalmente. Isto que é parte da minha coleção de angústias. Vergonha das espinhas que brotam na cara, dos membros desproporcionais ao corpo, de ser barrada na porta dos estabelecimentos para adultos, da voz indefinida. E, ainda, a arrogância de quem pensa que tudo será mais fácil depois dos 18.

A Puberdade emocional. A vida puxando até onde gritar de doer é possível quando se sabe hemorrágico, mesmo sem ver o sangue jorrar. Os ossos e as articulações latejando. Os oito anos esquecidos como se fizessem parte de uma outra vida que não a sua.

* * *

No meu quarto a dor é imensa, na minha casa os móveis são tão desproporcionais aos meus sentimentos. A lembrança da amiga sobre a escala humana dos tempos da arquitetura, onde tudo é referenciado por um bonequinho de um metro e setenta, também proporcional à escala da planta. (Me lembro de preferir desenhar na escala 1/50.) Na Tijuca a dor é pouquíssimo razoável. Tudo dói. Todo dói. Tô do-dói. Já não sei se caibo numa caixa, num quarto ou num bairro.

* * *

Na dor não consigo me agarrar a nenhum dos meus sonhos bons. Então, busco respostas do mundo real, de gente que se fez e refez como foi possível. E, só consigo descobrir, que para mim, há a opção de fazer tudo diferente. E até tentar o impossível. Fugir, já sei, não é garantia de happy-end. Desencontros. A voz, daquele mesmo que filosofou com frases de Lulu Santos, ecoando, que o mais difícil da vida são os desencontros das pessoas que amamos. É bom ouvir isto dele, e ao mesmo tempo constrangedor por saber que nosso desencontro também é dor, embora sobrevivamos a ele. Outro amigo me lembra que a questão é justamente esta: SOBRE-VIVEMOS.

Fecho os olhos, tomo por empréstimo um "sonho" amigo para desatar o nó: uma noite estrelada e sem vento, num barco ancorado no Saco do céu. Acordar no meio da noite escura para fazer xixi. Ver todo o céu refletido no mar sem ondas, fazendo com que tudo seja só a visão da negritude infinita pontilhada por estrelas. Só você, a pessoa que nem se vê, mas se sabe, as estrelas, e uma vertiginosa e bruta consciência de tamanho.

escrito por Paula 12:34 PM| |

Quinta-feira, Julho 21

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã, porque se você parar prá pensar..... na verdade não há. "


escrito por Paula 10:44 AM| |

Terça-feira, Julho 19

Registro 1
Talvez seja prudente avisá-los que estou com o encosto da personagem da Nicole Kidman em Dogville.


E, isto não é nada bom. Preciso encontrar Sylvia novamente.



escrito por Paula 1:19 PM| |

Caio
Depois de superar uma resiatência ao "negro" Caio Fernando Abreu, já consigo até gostar, e eleger algumas coisinhas...

E tudo isso ia acontecendo sem acontecer propriamente, enquanto a Moreninha Brejeira, se olhada mais atentamente e, o que era difícil, guardava alguma fundura por trás da brejeirice e, olhando bem, nem parecia tão moreninha assim. Era exaustivo, mesmo sem muitas palavras entre eles, não aqui, onde é o único jeito de tentar contá-los. Era incompreensível também, para quem nunca esteve dentro de algo semelhante . Mas reconfortante, mesmo que não bebessem chá. Como costumam ser os reencontros, afinal. Ou como deveriam costumar ser, que o mais das vezes são é mesmo puro desconforto, mesmo com chá.

Os companheiros (uma história embaçada) - de Caio Fernando Abreu em Morangos Mofados
escrito por Paula 1:06 PM| |

Sem sentido


(Imagem: cena de Mon oncle)
escrito por Paula 12:00 PM| |

Segunda-feira, Julho 18

Salto Alto # 4

Leo: Peraí. Não tô entendendo nada do que vocês estão fazendo...
Pá: Vai, Ququé. Explica pra ele. Muito complexo para o cérebro masculino.

Mulher quando tem poder é fogo.
escrito por Paula 2:22 PM| |

Salto Alto # 3

Pá: E o namorado da M., hem?!
T.: Blá, blá e blá.
Pá: É. Não dá pra respeitar um homem que usa cinto.

obs: Chico Buarque usa cinto.
Ele pode.
escrito por Paula 2:21 PM| |

Registro 1
Versão 2.04 implantada e no ar. Iupi!

Registro 2
Fiz duas tirinhas. Quando der eu posto.

escrito por Paula 9:37 AM| |

Sexta-feira, Julho 15

Registro 1
Estou tensa. Em TODO O BRASIL. TODO O BRASIL, minha gente. Todos os bancos da rede nacional.
Versão nova de Sistema é isso aí.

Registro 2
A Lagoa, a minha Lagoa, se chamará Cecília Meirelles.

Registro 3
Depois deste final de semana mato a saudade de todo mundo que não vejo há muito tempo.
Telefono para quem está longe, e coloco todos os papos em dia.

Registro 4
Hoje sou uma canção de Gonzaguinha...
escrito por Paula 2:05 PM| |

Cântico IV

Tu tens um medo:
Acabar.
Não vês que acabas todo dia.
Que morres no amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que te renovas todo dia.
No amor.
Na tristeza.
Na dúvida.
No desejo.
Que és sempre outro.
Que és sempre o mesmo.
Que morrerás por idades imensas.
Até não teres medo de morrer.
E então serás eterno.
(Cecília Meirelles)
escrito por Paula 1:51 PM| |

Quinta-feira, Julho 14

Soneto do amor como um rio

Este infinito amor de um ano faz
Que é maior do que o tempo e do que tudo
Este amor que é real, e que, contudo
Eu já não cria que existisse mais.

Este amor que surgiu insuspeitado
E que dentro do drama fez-se em paz
Este amor que é o túmulo onde jaz
Meu corpo para sempre sepultado.

Este amor meu é como um rio; um rio
Noturno interminável e tardio
A deslizar macio pelo ermo

E que em seu curso sideral me leva
Iluminado de paixão na treva
Para o espaço sem fim de um mar sem termo.
(Vinicius de Moraes)
escrito por Paula 10:34 AM| |

Já perceberam que ando numa crise de adolescência, não é?!
Não resisti ao quiz que encontrei no blogue da Mariana Blanc...
* * *
Your Love Life Is Most Like My Best Friend's Wedding
It's not looking so good for you and your latest crush.
Don't give up on men... but do give up on him.

What Movie Is Your Love Life Like? Take This Quiz :-)

* * *
Não assisti, mas uma amiga garante que tem tudo a ver comigo as confusões da personagem da Julia Roberts. Então tá, né?!

escrito por Paula 10:18 AM| |

Quarta-feira, Julho 13

Em Paraty. As Jus (bilau e bilona) assistindo o Suassuna e eu e a Ju iniciando os trabalhos etílicos...

Saco estas fotos em dupla! Sempre falta uma...

As crianças; As Jus com a Bruna...

Animando o Coupê...

Minhas fotos preferidas!

Em Angra de novo. Ana P., HRP, JuPires e eu; Eu; JuPrado, JuPires e Ana P.

escrito por Paula 2:11 PM| |

Se eu não fosse inquilina do Sêu Michel...
... gostaria de ter um destes filhotes da Frô. Fêmea, claro! Pra chamar de Frida, ou Tarsila, ou Virginia, ou... são tantos nomes.
Mas Sêu Michel não me deixa ter um cão. A quem interessar a Frô é da raça airedale terrier, e de acordo com a Tuninha, são doceis, gostam de crianças e quase não latem. Porém comem muito e precisam de exercício. Os sete filhotes estão à venda.


escrito por Paula 11:29 AM| |

Terça-feira, Julho 12

Registro 1
As minhas viagens para as bandas de Angra e Parati são sempre de descobertas e aprendizado.
Comi rabada pela primeira vez na vida!

escrito por Paula 9:29 AM| |

Registro 2
A semana que passou foi uma semana decisiva. Esta semana é uma semana decisiva.
Logo devo pensar que todas as semanas são decisivas?
Isso dá tanta preguiça.

(Assumo: estou fazendo contagem regressiva.)


escrito por Paula 9:29 AM| |

Registro 3
Precisaria de um relato decente para definir os sentimentos da viagem.
Mas tenho preguiça agora...

Deixo registrado alguns momentos que me vem à cabeça:
- Minha irritação ao falar de uma guria de 16 anos para a amiga;
- A música tema da viagem: Iluminados. (Pode dizer que é brega, vai...) (*)
- Hulda, a mulher, me fazendo refletir sobre viuvez;
- Hulda, a avó, legendando Bicicletas de Bellevile;
- A cena feliz de um casal alimentando os peixes no rio;
- A oferta de uma garrafa de Whisky;
- Um ovo frito(de gema mole) de domingo;
- Ariano Suassuna (minha "participação" na FLIP);
- A força que tem (ou não tem) um abraço;
- Meu choro pra fora;
- Um choro pra dentro de um amigo;
- A voz doce da Ju cantando Paulinho da Viola às cinco da manhã no carro; (**)
- Um pai-psicanalista-motorista-policial-amigo e os seus sonetos; (***)
- A Bananinha!
- Um violão na praça;
- Os novos e antigos laços que se fazem, desfazem e refazem;
- Os laços sem intermediários;
- Ver nos outros a capacidade de se jogar, ao perceber que pode ter esbarrado no grande amor da sua vida nº 55, e não ter medo.
- O café da manhã especial de segunda entre pessoas especias;
- Um ovo frito (de gema dura);
- Minha esperança ao falar da menina de 16 anos;
- O mangue.

(*)
Iluminados
(Ivan Lins-Vitor Martins)
O amor tem feito coisas
Que até mesmo Deus duvida
Já curou desenganados
Já fechou tanta ferida

O amor junta os pedaços
Quando o coração se quebra
Mesmo que seja de aço
Mesmo que seja de pedra

Fica tão cicatrizado
Que ninguém diz que é colado

Foi assim que fez em mim
Foi assim que fez em nós
Esse amor iluminado

(**)
Samba do amor
(Paulinho da Viola - Elton Medeiros - H. Bello de C)
Quanto me andei
Talvez pra encontrar
Pedaços de mim pelo mundo
Que dura ilusão
Só me desencontrei
Sem me achar
Aí eu voltei
Voltar quase sempre é partir
Para um outro lugar


O meu olhar se turvou
E a vida foi crescendo
E se tornando maior
Todo o seu desencanto
Ah, todos os meus gestos de amor
Foram tragados no mar
Ou talvez se perderam
Num tempo qualquer
Mas há sempre um amanhecer
E o novo dia chegou
E eu vim me buscar
Quem sabe em você

(***)
A NÃO-TORMENTA
E novamente vejo o mar parado.
As ondas se deitaram. O próprio vento,
Que outrora me ofertava movimento,
Parece que dormiu de tão cansado.

Ao norte nada, e em seu oposto lado
Lembranças, que sussurram num alento,
No oeste um sol se põe, já sonolento,
Do leste surge um céu revigorado:

É noite grande. Cada estrela é um marco
De quem pôs resistência em naufragar.
E então, com cada braço faço um arco.

Sem ver para onde vou, passo a remar.
Não sei quanto de mim constrói o barco,
Nem sei quanto de mim preenche o mar.

(Henrique Rodrigues )


escrito por Paula 9:03 AM| |

Quarta-feira, Julho 6

Atenção

As pobres coisas que eu sei
Podem morrer, mas espero
Como se houvesse um sinal
Sem sair do amarelo

(Aldir Blanc em Transversal do tempo)


escrito por Paula 6:26 PM| |

Terça-feira, Julho 5

Frases

Faiscantes carambolas de palavras através do tempo e do espaço.
(Rosa Montero sobre as citações em A louca da casa.)




A vida, esta que não canso de definir como fascinante, consiste em agarrar frases.

Fui até pouco tempo pessoa desprovida de coleção própria. Em parte por não ter uma memória tão prodigiosa, e outra por preconceito. Como achar chatas todas as pessoas que jogam xadrez, considerava chatas as pessoas que colecionam citações. Grandessíssima bobagem. O que não quer dizer que não existam chatos jogadores de xadrez e etc. Tudo porque um dia na vida devo ter esbarrado com um chato vomitador de frases feitas. Nunca é tarde para derrubar seus próprios preconceitos. E, como nunca é tarde para começar, aos poucos construo o meu guia de referências particular.

Dona Dizuite advertiu sua filha: Não confie em homem que tenha desvendado o mistério das cebolas. Esta é frase típica conselho de mãe-vó-vizinha-faladeira, costumo ser cética até que a experiência me demonstre o contrário, e aí então terei todos os homens-cebola como de má-fé. Entretanto agarrei a frase pelo efeito cinematográfico que ela proporciona, e não deve mesmo ser confiável um homem que não derrama lágrimas ao cortar o vegetal de camadas. Amiga Marcita que o diga.

Alteração na vida. Meus Olhos tristes.
Esta frase eu carrego comigo para me lembrar que pode haver ternura em nossos pecadinhos. Começa assim o conto Fujie de João Antonio Filho, a quem classifico como o doutor construtor de primeiras frases. Como experiência pode-se ler um livro seu do início ao fim lendo apenas as primeiras frases. Ah, que síntese! Sim, eu já fiz isto. Arthur, o Dapieve, escreveu certa vez que a primeira frase implica diretamente em fisgar o leitor em seu texto. (dito isto em outras palavras que não me recordo.)

Já escrevi sobre floresce em qualquer vaso, Se joga, Flor!, Vou e venho. Esta última segue a categoria das frases que explicam um modo de vida. Autoria do Paulo Mendes Campos, mestre das ambivalências. É dele uma crônica com um apanhado de frases de grandes homens: Como disse o homem, texto de alto teor grifável. Gosto de várias, e de lá agarrei esta (mesmo sem saber de quem é): É preciso sacudir a vida; do contrário, ela te rói.

Guimarães Rosa era homem de grandes frases. Preciso ler mais. Falando em Rosa, tem a Montero, que li recentemente, e já capturei algumas frases como: A alucinação passageira da paixão é uma doidice socialmente admitida.

Considerei frase, mas pode ser uma citação extensa de até um parágrafo. Ou uma palavra pinçada. Pode ser título de livro, e até trecho de música. E, aqui neste plano eu, que me considero pessoa-musical, me prolongaria por mais alguns muitos parágrafos. São tantos os bons frasistas musicais... pra começar a tríade de Paulos: Pinheiro, Vanzoline e o da Viola. E, temos ainda o Chico, o Aldir (o frasista das impurezas e escatologias), e tantos mais.

Agarrar frases, sem me trair, tem sido um bom exercício. Não é fácil, não se perder com frases que dizem mais de fora que de dentro, não generalizar por preguiça ou mesquinharia, ou usar critérios pouco pessoais. Construir uma enciclopédia, um dicionário, ou um guia referencial, é tarefa para se achar, e não se ver mais só neste mundo, é possuir as frases que ama.

escrito por Paula 10:36 AM| |

Sexta-feira, Julho 1

...
Ontem na livraria-sebo não dei muita bola para um livro que eu gostaria de ter entre os meus.
Hoje estou com medo dele ter sido vendido. Tinha capa dura e tudo...

escrito por Paula 10:46 AM| |


Ingrid tem fome

Meio zonza acordei esta madrugada com fome. Muita fome. Fui à geladeira, como uma ratinha, traçar o que tivesse por lá. Morangos e uvas. Lembrei de Ingrid e sua fome. Ingrid uma menina de nove anos, esperta como só são as meninas de nove anos. Tem os cabelos encaracolados, e foi deixada pela mãe. Isto é tudo que sei de Ingrid. Deixada é apenas um eufemismo, Ingrid vive com a avó, pois sua mãe a abandonou.

Minha mãe contou que na feira encontrou a vó de Ingrid, e perguntou pela menina dos cachinhos. Ela saída de uma ávrore, iluminou a face com um sorriso, e veio toda prosa se apresentar. ¿Tá com saudade de mim, é?!¿ ¿Acho que você gosta de mim...¿ ¿Posso te chamar de mãe?¿.

Ah! Se paixão é Ipanema-Leblon, bossa-nova, Manoel Carlos, me diz que bairro é este que Ingrid suscita com sua fome? Eu diria Lagoa. Mas a Lagoa não me sai do pensamento, e posso estar me confundindo. Catete, talvez. Flamengo.

Há quem busque conhecimento, sabedoria, filosofia, intelectualidade, sucesso, e não sei mais o quê. Busco os nove anos mais simples e imagináveis que podem existir entre nós humanos. Sempre tive fome, e nunca soube o que fazer com ela, ou por ela, ou para ela. A simplicidade de me alimentar instintivamente, como um bebê-lobinho procurando o seio da mãe, é o que desejo. Renegarei qualquer complexidade que me vier, mesmo que vestida de elementos ludibriadores.

Depois dos morangos, das uvas, e das lembranças da menina de nove anos, encontrei duas mensagens no celular. Uma dizia: ¿Pseudo de Buarque?¿ E a outra: ¿É muito difícil lidar com a saudade.¿. A primeira confesso: não entendi. A segunda é bem mais simples e objetiva, como a sabedoria de uma menina de nove anos, mais uma invasão da fome numa madrugada de solidão.


Foto: Cig Harvey de novo.
escrito por Paula 10:31 AM| |


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