[Aline, do Sobre todas as coisas] [ Antonia, do Inveja de gato] [ Arnaldo Branco, do Mau Humor ] [César, do Clínica Tobias]
[ Claudinha, do Lameblogadas] [Claudio Jorge, do Nas rodas...] [ Chris, do Contexto da descoberta] [
Chris Pessoa] [Felipe K., do La vie en blues] [
Flávia, do Insustentável] [Flávio, do Balcão de idéias] [
Fred, do É o Brasil] [Galera do Bolsa Escola] [
Gui, do Perto do coração...] [
Henrique, do Bagunçando o coreto] [
Kamille, do Samba e amor] [
Juli, do Melodia Infinita] [
Luis Filipe, do Seremos Felizes] [
Pepe Legal, do Mascavinhas] [
Mara, do Caderno Branco] [
Mariana Blanc, Cartas de Hades] [
Marcelo, do Pentimento] [
Marco, do Samba Carioca] [
Maria Cristina, do Caminhante] [
Michelle, do Palavras pelo mundo] [
Nei Lopes, do Meu lote] [
Nininho, do Samba Meu] [
Patrícia, do Ca comigo] [
Rafa, do Na cara do gol] [
Rogério, do Samba Riscado] [
Ronize, do Palavra e tal] [
Silvio, do Moidsch] [
Tuninha, do Branca por cruza] [
Vicente, do Preto, pobre e suburbano] [
Zé, do Sexo, cachaça e samba&choro] [
Zé, do Sovaco de cobra]
a q u i v o s |c o n t a t o
Terça-feira, Maio 31
Para mim um achado a carta do poetinha para a Marília Medalha, que pode ser encontrada na contra-capa do disco Marília Vinícius dos dois. O tesouro se encontra nas palavras do poeta, destacando as habilidades da moça de Niterói em usar as feridas a favor do crescimento.
E sabem de uma coisa? Resisti ao disco até o final. Não tenho medo!
* * *
Encontro e desencontro
Moça de Niterói,
(...)
Como, lenta, se faz a borboleta, eu vi você se debater de dentro de sua crisálida, na ânsia de todos os azuis; e uma vez liberta, partir sem medo de machucar as asas contra as paredes do mundo e queimar-se na luz do amor sem peias. E ao mesmo tempo que você se feria, fazia-se mulher, cada vez mais mulher e crescia em conhecimento e solidariedade, e aprendia a transformar seu sofrimento em canção, emprestando voz aos que não têm, nem engenho, para desabafar seus próprios desencontros de amor.
Foi vendo você viver e amar que eu cheguei a lhe querer todo o bem do mundo, como quero agora. E só espero que este disco, que é também um pouco meu, faça o caminho que merece, pelo que representa de seu amor, sua coragem e sua lealdade como mulher e como amiga. Não é à toa que Gesse chama você de "irmã-escoteira". Sempre alerta, Lobinha! A vida é feita de muitos, muitos desencontros até chegar a hora do grande encontro. Vá em frente, mas... ôlho vivo!
Rio, julho 1972.
Vinicius
* * *
Se o amor pudesse
(Vinicius de Moraes / Marília Medalha)
Se o amor pudesse de repente compreender
Toda a loucura que um amor pode conter
Se ele pudesse, num momento de razão
Saber ao menos quanto dói uma paixão
Quem sabe o amor, ao descobrir a dor de amar
Partisse embora para nunca mais voltar
Mas me parece que uma prece ia nascer
Na voz daqueles que o amor mais fez sofrer
A lhe dizer que vale mais morrer de dor
Do que viver num paraíso sem amor
escrito por Paula 9:15 AM|
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Segunda-feira, Maio 30
Registro 1:Big boss está de mau-humor. E, eu não tenho culpa, oras. Respondi um email desejando feliz páscoa no fim. Ele reconheceu que está mau-humorado...
Registro 2: Aderi ao MSN. Não tenho ninguém ainda adicionado.
Registro 3: Martelo batido. Meu aniversário será no Trapiche. Antes da data penso que gosto de comemorar aniversários. No dia não gosto. Fico tensa, e não me divirto. Queria ser só uma convidada. Este ano vou mandar Sylvia no meu lugar.
escrito por Paula 3:40 PM|
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Domingo, Maio 29
Sou rio
Um menino sentou em minha margem. Estava só. Pôs-se a me atirar pedrinhas. Retribuí o presente com um som doce e desenhos de círculos a partir do eixo por onde recebi a pedra, que não demorou a encontrar o fundo. Ele sorriu. Fui rio com uma pedra, um menino à margem, e um sorriso. Homens-meninos às vezes esquecem que adulteceram, e não resistem às pedrinhas, mesmo sem entender o porquê.
Sou apenas rio. Não prometo nada. Ou prometo. Prometo não ser indiferente aos assuntos do meu caminho.
Daniela veio com um segredo e uma flor. Uma flor qualquer, quase vulgar, me contou seus desejos, e me fez jurar segredo. Fui fiel. Fui rio com uma flor(margarida, eu acho), uma menina, e um segredo. Não prometi nada, sou rio. Devo fluir. Não posso ser fiel a desejos como os de Daniela. Tenho as pedras, folhas mortas e peixes.
Um homem de mãos ásperas, afundou uma tarrafa em meu leito, e me tomou cinco peixes. Família espiando da margem. Talvez tenha sido a cena mais bonita em que me doei paisagem. O som dos peixes se debatendo freneticamente. Estrubuchavam, morriam. Desejei ser um daqueles peixes. Morte para vida. Fui fiel ao homem, sua fome e dos seus.
Tenho uma infinidade de desejos e dores, mas fidelidade exclusiva não tenho. Tenho ainda os peixes (As ovinhas de Marta-Peixe já são peixinhos nadando em minhas águas), Daniela, uma flor, o menino, a pedra.
Da ponte ganhei um suicida. Supurou sua dor comigo. Teve a cabeça aberta por uma de minhas pedras com limo, seu coração já nem tinha música. Cantei sozinha. Seu sangue soluto se misturou ao meu corpo. Deslumbrei-me com o vermelho, e desejei sê-lo. Não pude ser fiel ao vermelho. Fui rio rosado carregando um corpo.
Sou rio. Escorro, sigo. Se tenho desejos e dores? Sim, tenho todos. Incoerentes, inconstantes, volúveis, infiéis, voláteis, paradoxais, análogos, duais. Por isso sou fiel apenas a um: ser rio. Não tenho promessas. Escorro, canto, sou líquida. Ou melhor, tenho sim uma pequena grande fortuna. Prometo um som doce e desenhos de círculos se por acaso você não resistir às pedrinhas do caminho.
escrito por Paula 11:35 PM|
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Lua
(Paulinho da Viola)
Louca
Traçou de novo as curvas do caminho
Lançando fora as pedras de um destino
Que sempre carregou sem reclamar
Livre
Abriu-se toda em todas as mudanças
Deixou voar inúmeras lembranças
Dizendo estar feliz de tanto amar
Dizia
Que se chamava Lua e era fria
Que loucos e poetas sempre vinham
Beber em sua luz suas manias
Nunca nenhum tocou seu manto de amargura
Nem pode perceber como era pura
Imenso mar que se julgava Lua
escrito por Paula 11:35 PM|
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Sexta-feira, Maio 27
Alma
(Sueli Costa e Abel Silva)
há almas que têm
as dores secretas
as portas abertas
sempre pra dor
há almas que têm
juízo e vontades
alguma bondade
e algum amor
há almas que têm
espaços vazios
amores vadios
restos de emoção
há almas que têm
a mais louca alegria
que é quase agonia
quase profissão
a minha alma tem
um corpo moreno
nem sempre sereno
nem sempre explosão
feliz esta alma
que vive comigo
que vai onde eu sigo
o meu coração
escrito por Paula 11:40 AM|
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Quarta-feira, Maio 25
[ memórias ]
Ouço a palavra micro-ondas, e o sentimento pelo qual sou tomada é de horror e ternura. Sim, ternura por um corpo disforme carbonizado. Se Elias Maluco queimou ou não corpos num "micro-ondas" eu não sei. Sei que a imagem dos corpos enegrecidos me dói. A primeira vez que ouvi sobre o "micro-ondas" de gente tinha eu meus 17 anos.
Nelson Rodrigues diz que não se reconhece na adolescência, tampouco eu. Fui outra. Um dia uma amiga me convidou para uma festa, fui. Era "no outro lado". Eu sabia: perigoso, mas fui. Sempre fui uma curiosa displicente, e nesta época não sabia que era preciso administrar esta curiosidade. Fui "ao outro lado". A festa era um baile funk. Policia bateu, correria. Conhecia pouco o lugar, me perdi da amiga. Quando dei por mim, estava numa fria. Corri para o mesmo lado que a galera do mal. Uns tentavam arrombar a casa de moradores para se esconderem da polícia, outros exibiam armas. Apareceu o menino dos olhos amendoados, o meu salvador. Sem uma palavra me puxou pelo braço por um beco. Subi na garupa de sua moto e em poucos minutos eu estava na varanda da minha casa. Sã e salva, e em promessas de não voltar mais "ao outro lado".
Meu salvador era um menino. Uns 18 anos no máximo. Trabalhava numa oficina mecânica em frente a minha casa. Fachada, na verdade era um desmanche de motos roubadas, fui saber mais tarde. Trocávamos poucas palavras. Na rua poucos trocavam palavras com eles, era uma rua de pessoas humildes sim, mas todas famílias de bem. Eu bem me acostumei com os olhares dele. Sabia o horário que eu voltava do colégio, conhecia todos os meu hábitos, sempre me esperava. Só havia isto: olhares. Lembro de um dia ou outro ter-lhe emprestado a mangueira para esguichar água, ou dado um copo de água, de resto só os olhares. E não eram olhares obscenos, eram os olhares mais ternos de que me lembro desta época.
Quando ele me deixou segura na varanda de casa, me pediu, e implorou que eu não voltasse ao outro lado: "Promete?". Não se demorou nem 10 minutos, tinha um compromisso. Íamos nos ver no dia seguinte, a promessa de encontro ficou acertada em um beijo. Um único beijo, e olhos de amêndoa se foram. Não os vi mais depois daquela noite. O portão da oficina fechado nos dias seguintes me corroia, nenhum par de olhos a me seguir subindo as escadas de casa. Nem notícias suas após a noite da varanda.
Vergonha de ter morado naquele bairro tão violento não tenho, não. [Embora, algumas pessoas possam achar isto. Uma malinha que me mandava mensagens anônimas por exemplo tentou me ofender por eu ter morado no subúrbio.] O sentimento que tenho por aquele bairro é formado por um conjunto de memórias cravadas no asfalto daquelas ruas, que ainda hoje voltam a me azucrinar nas horas mais sombrias. E, por mais que eu tente esquece-las, vezes por outra elas vem, mesmo que seja assim em memórias de um par de olhos amendoados. Tudo ali são memórias de dor, que ainda carrego comigo, que ainda tenho esperanças em diluir. Ainda hoje me agarro com amor à imagem de um corpo enegrecido e disforme encontrado queimado num "micro-ondas" no morro da Formiga.
escrito por Paula 10:00 AM|
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Segunda-feira, Maio 23
Registro 5
Estou com saudades das minhas amigas.
escrito por Paula 2:04 PM|
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Registro 4
"Ser chefe" para mim é...
nunca mais ficar tranquila em dia de semana em horário comercial.
escrito por Paula 2:04 PM|
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Registro 3
Seis meses. Tem valido muito a pena. Se me dissessem que expiraria em 6 meses e um dia, ainda assim eu escolheria viver isto.
escrito por Paula 2:03 PM|
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Registro 2
Ficaria feliz se o meu aniversário fosse num karaokê. Fátima disse que até emprestaria o dela...
Falta um lugar.
escrito por Paula 2:03 PM|
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Registro 1
Foi ótimo o show da Fátima Guedes na Lona Cultural de Guadalupe.
Preciso de mais palavras para um bom registro da noite, mas... elas fugiram.
Faca
(Fátima Guedes)
O seu nome é uma faca
me dilacerando
O segredo é uma faca
de dois gumes
Morro de Paixão,
morro de ciúmes
Você vive na estrela
incomunicável
Você fala comigo
e nem me vê
Preciso olhar o céu
pra compreender você
O seu nome é uma faca
lâmina afiada
enterrada no peito até o fim
É melhor morrer de uma vez
Eu estou jogada a seus pés
Tenha dó de mim
escrito por Paula 2:03 PM|
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Quinta-feira, Maio 19
Para os amigos que acreditam em milágrimas...
Milágrimas
(Itamar Asumpção e Alice Ruiz)
Em caso de dor ponha gelo
Mude o corte de cabelo
Mude como modelo
Vá ao cinema dê um sorriso
Ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
Se amargo foi já ter sido
Troque já esse vestido
Troque o padrão do tecido
Saia do sério deixe os critérios
Siga todos os sentidos
Faça fazer sentido
A cada mil lágrimas sai um milagre
Caso de tristeza vire a mesa
Coma só a sobremesa coma somente a cereja
Jogue para cima faça cena
Cante as rimas de um poema
Sofra penas viva apenas
Sendo só fissura ou loucura
Quem sabe casando cura
Ninguém sabe o que procura
Faça uma novena reze um terço
Caia fora do contexto invente seu endereço
A cada mil lágrimas sai um milagre
Mas se apesar de banal
Chorar for inevitável
Sinta o gosto do sal do sal do sal
Sinta o gosto do sal
Gota a gota, uma a uma
Duas três dez cem mil lágrimas sinta o milagre
A cada mil lágrimas sai um milagre
escrito por Paula 8:11 PM|
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Quarta-feira, Maio 18
Registro 4
Serenidade é algo que se tem quando se perde algo.
Ou seria o contrário?
escrito por Paula 8:47 AM|
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Registro 3
Não sei exatamente se estou curtindo este lance de ser "chefe".
escrito por Paula 8:44 AM|
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Registro 2
Um mês para o meu aniversário.
escrito por Paula 8:44 AM|
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Registro 1
Gosto de librianos. Sempre gostei.
escrito por Paula 8:43 AM|
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Segundo Consta
O mundo acabando,
podem ficar tranquilos.
Acaba voltando
tudo aquilo.
Reconstruam tudo
segundo a planta dos meus versos.
Vento, eu disse como.
Nuvem, eu disse quando.
Sol, casa, rua,
reinos, ruínas, anos,
disse como éramos.
Amor, eu disse como.
E como era mesmo?
(Paulo Leminski)
escrito por Paula 8:42 AM|
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Segunda-feira, Maio 16
"Floresce em qualquer vaso."
(Frase de Nelson Rodrigues em suas memórias)
Gostaria de desenvolver um texto sobre o amor a partir desta frase.
Será que consigo?
Vou tentar.
escrito por Paula 11:06 AM|
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bienal do livro
Saldo da bienal positivo: um ensaio sobre Leminski por 3 reais, Dalton Trevisan por 4.99, o último de Erica Jong por 9.99, mais algumas coisinhas baratinhas também.
De novidades e best-sellers não trouxe nadinha...
Em compensação trouxe duas coisinhas que queria faz tempo:
Carnaval
Universo do carnaval: imagens e reflexões do antropólogo Roberto da Matta.
Hopper
Taschen em promoção. Ô beleza. Hopper lá em casa.
[Queria todos!]
escrito por Paula 10:30 AM|
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Terça-feira, Maio 10
Avistou na minha estante alguns Sabinos, e disse que se ficássemos juntos, quero dizer se morássemos juntos, teríamos todos os livros do Sabino juntos na mesma estante. Tenho justamente aqueles que lhes falta. Achei interessante a idéia de todos os Sabinos juntos, mas não sei se lhe disse isto. Então me ocorreu, como às vezes me ocorre, pensamentos sobre a morte. A morte do amor. Sou condescendente com as mortes dos amores, pois acredito com veemência naquela frase de uma música: "Amor, meu grande amor, só dure o tempo que mereça". Dure o tempo que mereça. Meu corpo vai durar o tempo que merece, amores duram o tempo que merecem, e depois resta a alma. Neste contexto a morte do amor possivelmente implicaria(ou não) em uma despedida. Nossa como são tristes as despedidas. As malas prontas... Aquele separar de coisas: "isto é meu e isto é seu.", "ah, pode ficar com isso pra você.", "bem, isto eu comprei, então...", "o que eu vou fazer com isto, pode ficar..." Ah, se eu pudesse evitar as despedidas! Mas como? Evitando a catarse do encontro dos Sabinos na prateleira de uma estante? Nem morta.
* * *
Divisão
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta)
Você poderá ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeitar as molas. É claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as arvores. Estas sim, eu levaria de bom grado : as árvores, a vista do morro, até a algazarra das crianças lá embaixo, na praça. 0 resto dos moveis ¿ são tão poucos! ¿ podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.
A vitrola esta, tão velha que o melhor é deixá-la ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais tarde, as nossas respectivas vitrolas, mais modernas, dotadas de todos os requisitos técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: alta-fidelidade.
Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as valsas, as canções francesas, um ou outro "chopinzinho", o Mozart e Bing Crosby. Deixe para mim o canto pungente do negro Armstrong, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e honesto.
Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos, portanto. E conseqüentemente com a estante também.
Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também os dois chinesinhos de marfim e esta espátula. Veja só o que está escrito nela: 12-1-48. Fique com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos de barro. Com exceção,o de pote de melado e moringa de água, nada que foi feito com barro presta. Nem o homem.
Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, souvenirs. Que não reste nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nos dividido.
Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com estes objetos, um ou outro móvel. Tudo esta razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza, eu guardarei a minha.
Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) ¿ A casa demolida ¿ Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1968, pág. 201.
escrito por Paula 5:27 PM|
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Substância solvente indicada para o uso de ressentimentos, rusgas, melindres, mágoas, rancores e outros males que fazem doer o peito. E o melhor: está sempre ao alcance de todos.
obs: Figurinha roubada do site(fofo) que eu conheci pela Kamille.
escrito por Paula 9:19 AM|
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Lamentações sobre o que perdi no fim de semana: Angela Rorô, João Bosco, Lenine e Tom Zé.
Enquanto Espero
(João Bosco e Francisco Bosco)
Enquanto espero acontecer , enquanto espero ver no cais
Vou derramando sem querer a febre dos meus ais
Há muito tempo amor que trago dor dentro do peito
Há muito tempo a cor da solidão tingiu-me o leito
Há tanto tempo assim só eu dentro de mim
A procurar por nós e apenas uma voz
Responde, estão agora o vazio e a saudade a sós
Há muito tempo amor que eu te sufoco em pensamento
Mas quando a noite cai traz tua imagem como um vento
Faz tanto frio aqui só eu dentro de mim
A procurar por nós e apenas uma voz
Responde, estão agora o vazio e a saudade a sós
Navego um mar de fado azul angústia de um bolero
Versado em sombras meia luz soluço no meu canto
Uma canção enquanto espero
Enquanto espero acontecer enquanto espero ver no cais
escrito por Paula 8:56 AM|
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Segunda-feira, Maio 9
Mulher é tudo igual
(Ivana Arruda Leite)
Eu e a Marieta Severo não temos tempo pra solidão. Ela foi casada com Chico Buarque, eu com João Teodoro. Ambos nos deram muito trabalho. Teodoro era alcoólatra e me batia na cara. Passei com ele os piores momentos da minha vida. Como se não bastasse era meio veado, o cara. Vivia se enroscando com garotinhos por aí, depois os trazia pra casa e me apresentava como coleguinhas de trabalho. Ora, vê se eu sou boba. Punha os moleques pra dormir na minha cama, "ele não tem pra onde ir, coitado", e dormia comigo no sofá da sala. No meio da noite, João sumia.
Quando bebia além da conta e se punha a fazer escândalo, eu lhe dizia: qualquer hora pego minha bolsa e vou embora sem nem me despedir. Ele não acreditava. "Mulher é tudo igual", dizia.
Um dia eu estava na cozinha preparando o almoço quando João entrou e me viu despejar meio litro de azeite, dos bons, no copo do liquidificador. "Pra que tanto azeite?", berrou. A receita é essa, molho pesto é assim mesmo, vai azeite pra burro. Não sei por que, meus olhos se encheram de lágrimas. Liguei o liquidificador na potência máxima e aquele barulho infernal, e aquele manjericão todo moendo lá dentro, e aquelas nozes sendo trituradas, e aquele verde virando pasta cheirosa, foi me dando uma coisa de novidade, de começar de novo, uma coragem, que eu fui ao quarto e peguei minha bolsa. O liquidificador ficou ligado. Depois disso arranjei tanta coisa pra fazer, pra me divertir, que nem tive tempo pra solidão. João Teodoro estava certo, mulher é tudo igual. Um dia vira tudo Marieta.
Ivana tem Blogue. Bem aqui.
escrito por Paula 4:34 PM|
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Marieta ou Paula
Ivana Arruda Leite tem um conto que diz: Mulher é tudo igual, um dia vira tudo Marieta.
Caberia: Mulher é quase tudo igual, se não vira Marieta, um dia vira Paula Lavigne.
escrito por Paula 11:53 AM|
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Lembrete
Wilson Flora, caricatura fugida das charges do Lan para dar vida ao sujeito conhecido como Baiano, não gosta deste seu apelido.
Lembrar de tentar chamá-lo de Wilson ou de Flora, ou quem sabe Flora da Paraíba, WF ou Wilson-Bahia-Flora.
escrito por Paula 11:35 AM|
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Uma pulha
Presa ao meu tornozelo. Olhei-a de canto de olho, e a reconheci: a culpa.
Disse o Nelson Rodrigues que o que dá o mínimo de unidade interior a um homem é a soma de suas obsessões. Isto já me basta como desculpa para as minhas pequeninas obsessões. Quando Sêu Antônio, o porteiro do meu prédio, me convidou para o casamento de sua filha, soube de imediato porque não recusara o convite. Histórias de pais e filhas sempre me fascinam. Histórias de filhos em geral, mas tenho preferência, por identificação claro, com a de pais e filhas meninas. Dizer o porquê fui convidada para o casamento, não sei dizer. Sêu Antônio é fã das músicas que ouço: Clara, Elis, Monica, Maria Rita, Teresa. Todas mulheres. Foi o suficiente eu acho para ser querida na festa entre os seus. Eu prometi ir, vi nos olhos do Sêu Antonio que seláramos um trato.
Ontem o avistei de longe. Acenou. Abaixei a cabeça. Nenhuma mentira me veio. Pequenas mentiras para solver possíveis ressentimentos são sempre perdoáveis, eu acho. Não me veio uma que valesse.
- Ochê. Eu estava lá no altar achando que você estava lá me vendo.
- Ô Sêu Antônio. Eu...
- A festa durou até de manhã. Por que você não foi menina? Eu botava tanta fé em você lá...
- É. Eu... não consegui ir.
- Ela estava linda. 25 anos estava na hora de casar, não é?
- Chorou Sêu Antônio?
- Ah, eu não sou disso não. Você não foi porquê?
- Eu... ía, Sêu Antônio, acredite em mim. É que... Vim pra casa umas 6h me arrumar, mas...
- 6h? Poxa. Eu ainda estava aqui se soubesse tinha te chamado. Botava fé mesmo de ver você lá.
O corredor, do portão de ferro até o elevador, parecia não ter fim. Vidrei humilhada nas pontinhas brancas do chão. Ele não me poupou, foi comigo até o elevador, e gentilmente abriu a porta. Eu já no elevador olhando para o painel de controle sem coragem de encara-lo, e ele detalhando mais e mais o casamento e a festa. Do elevador até a porta de casa, mais uma infinitude de pontinhas no chão, e a corrente atrás de mim se arrastando. Ainda usando definições de Nelson Rodrigues: me senti como uma pulha. Nem mesmo arranjei uma mentira canalha que valesse.
obs: Não me lembro de ter lido Nelson Rodrigues chamando uma mulher de pulha. Somente homens.
escrito por Paula 10:58 AM|
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Sexta-feira, Maio 6
Há dias ruminando uma frase: "Bastar-se a si mesmo."
Não agarro, nem deixo passar despercebida. A sina de gemenianos [sempre a desculpa velha do zodiaco] em ser incoerente e volúvel em pensamentos e idéias.
escrito por Paula 3:00 PM|
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Quinta-feira, Maio 5
Queria ter tempo(na verdade disponibilidade) para ficar em frente ao computador gravando coletâneas com músicas que falam da minha alma no momento que estou vivendo. Como se fosse um diário. Seria bem legal.
obs: quando eu escrevia "alma", saiu "lama". Estes anagramas... Medo.
escrito por Paula 10:27 AM|
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É sobre-humano amar
'cê sabe muito bem
É sobre-humano amar, sentir,
Doer, gozar
Ser feliz
Vê quem sou eu quem te diz
Não fique triste assim
É soberano e está em ti querer até
Muito mais
A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?
Mas deixa tudo e me chama
Eu gosto de te ter
Como se já não fosse a coisa mais humana
Esquecer
É sobre-humano viver
E como não seria
Sinto que fiz esta canção em parceria
Com você
A vida leva e traz
A vida faz e refaz
Será que quer achar
Sua expressão mais simples?
Mais simples
José Miguel Winisk
escrito por Paula 9:58 AM|
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Quarta-feira, Maio 4
vicioso
Eu não havia chegado facilmente a me comprazer com a solidão e a castidade, como talvez possa se imaginar. Vivi a maior parte da minha vida para o amor - com os resultados previsíveis e comuns: coração partido, saudade, bebida em excesso e decisões estóicas de jamais amar novamente, nem bem tomadas e logo não cumpridas. Mas desta vez eu estava não apenas decidida, como também indiferente. O amor era meu vício e eu estava procurando me livrar dele a cada dia. Ah, era bem seguro dormir com Shakespeare - ou assim pensava no início de minha estada em Veneza.
(Erica Jong em Sereníssima)
escrito por Paula 2:32 PM|
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Tomara
(Vinícius de Moraes / Toquinho)
Tomara que você volte depressa
que você não se despeça
nunca mais do meu carinho
E volte, se arrependa e pense muito
que é melhor se sofrer junto
que viver feliz sozinho
Tomara que a tristeza te convença
que a saudade não compensa
e que a ausência não dá pé
Que o verdadeiro amor de quem se ama
tece a mesma antiga trama
e não se desfaz
escrito por Paula 10:28 AM|
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Terça-feira, Maio 3
Pra lista
Roubado da Giannetti: "Antologia com 17 contos em que romancistas, roteiristas, uma dramaturga e até um editor fazem ficção com assuntos ligados à obsessão pela literatura e pelos livros. Lançamento em maio. "

escrito por Paula 2:48 PM|
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Foco: Mulheres
Há alguns meses venho lendo, preferencialmente, mulheres.
Inês Pedrosa, Erica Jong, Ivana Arruda Leite, Simone de Beauvoir , Livia Garcia-Roza.
Simplesmente literatura feminina? Não. Débito meu para com as mulheres.
No íntimo tem me feito muito bem. Até mesmo no uso da literatura como fonte de auto-ajuda.
Imagem: http://www.melvinsokolsky.com/photographs/ideas/0018lasmaninasdog.jpg
escrito por Paula 2:14 PM|
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Amante
Para mim as amantes eram felizes porque só viviam o presente. O momento do estar junto do ser amado.
* * *
Ela tem um encontro "secreto" com um homem casado. Têm um pacto: viver o presente. (Todos deveriam pactuar sobre o presente, não? Palavras do filósofo Schopenhauer: Em vez de estarmos sempre e exclusivamente ocupados com planos e cuidados para o futuro, ou de nos entregarmos à nostalgia do passado, nunca deveríamos nos esquecer de que só o presente é real e certo.) Ela não para de pensar no encontro no horário das amantes. Será um almoço num japônes. Na verdade o japônes selou o encontro entre os dois. Ele quis saber despropositadamente se ela curtia comida japonesa. "É que ninguém lá em casa gosta. Se você topar...". E se ela não gostasse de comida japonesa? "Que sorte!", pensou. Desde o fim da ligação começou a planejar o encontro. O restaurante, a mesa, o prato perfeito. Quis fazer reserva, saber se aceitavam redeshop. Meticulosamente elencou os assuntos a serem abordados: cinema, música. Como as amantes ela quer agradar. Ela preferia um jantar, mas a sós somente no horário das amantes. Pensou em ligar para ele para saber sua sobremesa preferida. Não precisavam comer banana caramelada somente por obrigação. Desistiu. Isto poderia chateá-lo, e talvez ele cancelasse o encontro. Não se falariam até a data combinada, assim não correria o risco de ...
[Ela: expectativas]
São felizes as amantes, suponho.
São felizes as amantes?
São felizes as amantes.
Estão felizes as amantes?
As amantes são...
* * *
As famílias desfuncionais: de filha a amante.
escrito por Paula 1:56 PM|
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"Eu só vou acreditar em igualdade entre o homem e a mulher no dia em que nomearem pra um cargo importante uma mulher incompetente".
Achei genial a frase e roubei da Chirs, que por sua vez roubou do No Mínimo.
escrito por Paula 1:35 PM|
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Segunda-feira, Maio 2
Além da Razão
(Luiz Carlos da Vila/Sombrinha/Sombra)
Por te amar
Eu pintei
Um azul do céu se admirar
Até o mar
Adocei
E das pedras leite eu fiz brotar
De um vulgar
Fiz um rei
E do nada um império pra te dar
E a cantar eu direi
O que eu acho então o que é amar
É uma ponte
Lá para o longe do horizonte
Jardim sem espinho
Pinho que vai bem
Em qualquer canção
Roupa de vestir
Em qualquer estação
É uma dança, paz de criança
Que só se alcança
Se houver carinho
É estar além
Da simples razão
Basta não mentir pro seu coração
escrito por Paula 4:51 PM|
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Contra a esperança
(Carlos Nejar)
É preciso esperar contra a esperança.
Esperar, amar, criar
contra a esperança
e depois desesperar a esperança
mas esperar, enquanto
um fio de água, um remo,
peixes existem e sobrevivem
no meio dos litígios;
enquanto bater
a máquina de coser
e o dia dali sair
como um colete novo.
É preciso esperar
por um pouco de vento,
um toque de manhãs.
E não se espera muito.
Só um curto-circuito
na lembrança. Os cabelos,
ninhos de andorinhas
e chuvas.A esperança,
cachorro a correr
sobre o campo
e uma pequena lebre
que a noite
em vão esconde.
O universo é um telhado
com sua calha, tão baixo
e as estrelas, enxame
de abelhas na ponta.
É preciso esperar contra a esperança
e ser a mão pousada
no leme de sua lança.
E o peito da esperança
é não chegar;
seu rosto é sempre mais.
É preciso desesperar
a esperança
como um balde no mar.
Um balde a mais
na esperança
e sobre nós.
escrito por Paula 10:46 AM|
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