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Quinta-feira, Março 31

 
Cebolas e Gravatas
Vou te contar, tenho até medo dos meus pedidos. Pedi uma viagenzinha a deus, que fosse para São Pedro da Serra, Petropólis, Friburgo, sei lá. Queria fugir um pouco. Ele atendeu. Raios. Mandou-me para Brasília. Cá estou, nesta terra que a paisagem de manhã é estática. Todo dia de manhã o sol vai consumindo um cartão postal, uma fotografia com pose. Brasília está sempre pronta para a foto com um xis na cara.

Seria uma viagem como tantas outras que fiz para cá. Mas deus entendeu que eu precisava mais de uma viagem. Precisava de estranhos ao meu lado para eu me achar. No avião dei conta disto. Do meu lado esquerdo o Dr. Cebola, do outro o Tio Sukita. Depois se juntaram ao grupo o Senador, o Sr. Vegetable, meu Big Boss, conhecido como Sr. Pinto e mais alguns outros. Tudo gira ao redor do Dr. Cebola.

Sentávamos à 5 metrso de distância no Rio e nunca haviámos trocado mais de 2 palavras por dia. Bom dia. Eis que um outro colega nos junta num almoço. Foi ali que percebi que Dr. cebola era um cara que merecia uns minutinhos da minha atenção(quem não merece, não é mesmo?! E quem não merece!!!). Bom, vou logo contando o principal: ele é um bom pai, e entende tudo de cebolas. Imagine, estava de mau com sua mucama pois ela desperdiçou cebolas roxas temperando o feijão. Tá para você pode nãos ser nada, mas para mim é. Um homem que compra três tipos de cebola, e conhece suas funções, são raros. Raríssimos estes homens. Engraçado é que Dr. Cebola não saca nada de gravatas. Ontem mesmo usava uma que parecia um tapete persa.

(...)

escrito por Paula 9:29 AM| |


Quinta-feira, Março 24

 
Estou um pouco ausente.
Não levem para o pessoal, ok?

Este exame de miopia é lento, e o óculos é caro.
Quase me perdi de vista.


escrito por Paula 5:57 PM| |

 
Rir com os pulmões. Já tentou?
É deboche assumido, e é uma saída.
Outra seria entregar-se aos corrosivos.
Ter na pele monstros sugadores. Xô.

Comunicado para os meus pulmões:
- Nunca precisei tanto de vocês.


escrito por Paula 5:57 PM| |


Quarta-feira, Março 23

 
Místico
(Vinicius de Moraes)

O ar está cheio de murmúrios misteriosos
E na névoa clara das coisas há um vago sentido de espiritualização¿
Tudo está cheio de ruídos sonolentos
Que vêm do céu, que vêm do chão
E que esmagam o infinito do meu desespero.

Através do tenuíssimo de névoa que o céu cobre
Eu sinto a luz desesperadamente
Bater no fosco da bruma que a suspende.
As grandes nuvens brancas e paradas ¿
Suspensas e paradas
Como aves solícitas de luz ¿
Ritmam interiormente o movimento da luz:
Dão ao lago do céu
A beleza plácida dos grandes blocos de gelo.

No olhar aberto que eu ponho nas coisas do alto
Há todo um amor à divindade.
No coração aberto que eu tenho para as coisas do alto
Há todo um amor ao mundo.
No espírito que eu tenho embebido das coisas do alto
Há toda uma compreensão.

Almas que povoais o caminho de luz
Que, longas, passeais nas noites lindas
Que andais suspensas a caminhar no sentido da luz
O que buscais, almas irmãs da minha?
Por que vos arrastais dentro da noite murmurosa
Com os vossos braços longos em atitude de êxtase?
Vedes alguma coisa
Que esta luz que me ofusca esconde à minha visão?
Sentis alguma coisa
Que eu não sinta talvez?
Por que as vossas mãos de nuvem e névoa
Se espalmam na suprema adoração?
É o castigo, talvez?

Eu já de há muito tempo vos espio
Na vossa estranha caminhada.
Como quisera estar entre o vosso cortejo
Para viver entre vós a minha vida humana...
Talvez, unido a vós, solto por entre vós
Eu pudesse quebrar os grilhões que vos prendem...

Sou bem melhor que vós, almas acorrentadas
Porque eu também estou acorrentado
E nem vos passa, talvez, a idéia do auxílio.
Eu estou acorrentado à noite murmurosa
E não me libertais...
Sou bem melhor que vós, almas cheias de humildade.
Solta ao mundo, a minha alma jamais irá viver convosco.

Eu sei que ela já tem o seu lugar
Bem junto ao trono da divindade
Para a verdadeira adoração.

Tem o lugar dos escolhidos
Dos que sofreram, dos que viveram e dos que compreenderam.




escrito por Paula 10:23 AM| |

 
Não uso relógio, já reparou?
Não sei ver as horas. Confundo os ponteiros dos segundos, dos meses e das décadas.
Assim são as "coisas" também, não sabem exatamente a hora, mas sempre acontecem quando devem acontecer.

De resto é esperar o tempo passar.
escrito por Paula 9:45 AM| |


Terça-feira, Março 22

 
Vindo o outono

Nudez outonal.
Felizes são as árvores,
vivem as estações.
escrito por Paula 10:10 AM| |


Quarta-feira, Março 16

 
Este poste aí escrevi há muito tempo. Já até caducou.
Agora trabalho numa sala decente. Tem até ar condicionado. Mas para issso...

Volto depois, muito trabalho.
escrito por Paula 7:01 PM| |

 
Metamorfoses
(Para Dora, a barata)

A vista daqui é linda
Trigésimo andar:
Cinelândia, Pão de acúcar, Baía.
Tive orgulho um dia.

Dora, a barata, me falou
o que a cegueira calou.

Começou pelo cafezinho.
Aliás, o cafezinho é sempre
um bom parâmetro de respeito.
Nada não: compramos uma cafeteira.
Pó e filtro.
Depois foi a água.
Nada não: compramos água mineral.
Então o ar.
Compramos ventiladores.
Ainda a economia de papel no banheiro,
copinhos descartáveis e sabonete.

As baratas são mudas.
Não dizem nada.
Dora, ah Dora! A minha barata.
Dora me fez enxergar
a minha insignificância.
Chorei. Dora, não sabia que estava
vindo para a morte.
Simplesmente veio.
Passeou no mouse, no teclado,
zombando de qualquer um.
Tive compaixão.
Amei a Dora como quem cultiva calos,
por isso não cogitei matá-la.
Deixei-a.

Então, veio o moço da frigideira.
Nos dias de calor dá pra fritar ovos aqui, sabia?
Foi cruel, mas Dora nem soluçou
implorando piedade.
Morreu esmagada pelo fritador de ovos.
escrito por Paula 6:59 PM| |


Sexta-feira, Março 11

 
Maria, Livia e Ivana
Ressentimento(Maria Rita Kehl), Restou o cão(Livia Garcia-Roza) e Falo de Mulher(Ivana Arruda Leite). Três livros, de três mulheres, recentemente indicados na mídia, e que entraram para a minha lista de livros a serem lidos. Pena não encontrar o Ressentimento na Livraria da Travessa.

Mais em comum do que aparentam à primeira vista.


escrito por Paula 2:37 PM| |


Quinta-feira, Março 10

 
Moska e Drexler
Show do Moska ontem à noite no Centro Cultural Carioca, além do convidado Marcos Suzano ao pandeiro, teve a participação do Jorge Drexler no primeiro Bis. Bom, foi bom. Muito bom. Os dois numa sintonia danada no palco.

Drexler tem sete trabalhos gravados, o primeiro em 1992. O Moska o conhece há 2 anos por uma fã que lhe deu um disco pirata, desde então trocam figurinhas e fizeram alguns shows juntos fora do Brasil. Fátima Guedes o conhece há 7, quando ganhou um disco seu num show que fez na Espanha. Logo incluiu Drexler no repertório de um de seus shows. Não fosse o "Diários de Motocicleta" e o Oscar, quanto tempo mais ficaríamos sem conhecer este moço, hem?

Apaixonei.



LA EDAD DEL CIELO
(Jorge Drexler) Para David Broza
No somos más
que una gota de luz,
una estrella fugaz,
una chispa, tan sólo,
en la edad del cielo.

No somos lo
que quisiéramos ser,
solo un breve latir
en un silencio antiguo
con la edad del cielo.

Calma,
todo está en calma,
deja que el beso dure,
deja que el tiempo cure,
deja que el alma
tenga la misma edad
que la edad del cielo.

No somos más
que un puñado de mar,
una broma de Dios,
un capricho del Sol
del jardín del cielo.

No damos pie
entre tanto tic tac,
entre tanto Big Bang,
sólo un grano de sal
en el mar del cielo.

obs1 Moska fica com a temporada no CCC todas as quartas do mês.
obs2 Imagem: http://www.el-universal.com.mx/img/2004/09/Esp/070904uruEFE.jpg
escrito por Paula 11:02 AM| |


Quarta-feira, Março 9

 
Alguma coisa está fora da ordem
Tem mais de horas que não emito som algum.
Não chega a ser preocupante, tenho falado bastante sozinha.

Talvez tenha perdido a capacidade de discernir azul do rosa. Rosa do amarelo. Amarelo do vermelho. Vermelho do verde. Tudo é cor. Tudo é tão óbvio diante dos olhos de quem as vê. Tudo é tão óbvio, que até os redatores do Oglobo concordaram, e profetizaram os fenômenos acontecidos com uma frase na primeira página: "Alguma coisa está fora da ordem." Veja bem: até com o Chico, mas não nos espantemos, ele também morre.

Gostaria de obter esclarecimentos a respeito da tal. Se está realmente fora, ou se nós é que insistimos em não nos ajustar a que aí está. No mais aceitaria de bom grado que me ninassem até eu pegar no sono de novo.

escrito por Paula 5:44 PM| |


Terça-feira, Março 8

 

Nuvem
Dormir, e pedir:
sonhos bobos e azuis.
Despertar nuvem.
escrito por Paula 4:15 PM| |

 
Pulsa, pulsa, pulsa, pulsa, pulsa mais
(...)
Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás
Arranca, vida
Estufa, veia
E pulsa, pulsa, pulsa
Pulsa, pulsa mais
Mais, quero mais
Nem que todos os barcos
Recolham ao cais
Que os faróis da costeira
Me lancem sinais
Arranca, vida
Estufa, vela
Me leva, leva longe
Longe, leva mais

(...)
(Chico Buarque, Vida)
escrito por Paula 2:56 PM| |


Segunda-feira, Março 7

 

Naquela manhã eu chorei. Chorei porque amava as ruas que me afastaram de Henry e me levariam de volta a ele. Chorei porque o processo através do qual me tornei mulher foi doloroso. Chorei porque de agora em diante eu choraria menos. Chorei porque perdi a minha dor, e ainda não me acostumara com a sua ausência.

Anais Nim sobre Henry Miller, no filme "Henry e June".


escrito por Paula 10:02 AM| |


Quinta-feira, Março 3

 
Cacique de Ramos
Domingo, à tardinha, de graça, 3 reais a skol latão, roda de samba enfezada aos pés das tamarineiras.
Sabe onde é?

obs1: a foto não quis aparecer...
obs2: Esta roda acontece todo domingo lá na Rua Uranos em Ramos.

escrito por Paula 3:26 PM| |

 
(...)Como às vezes, ao surgir o dia, o homem se sente miraculosamente perdoado de todos os crimes, crimes não, de todas as coisas feias que cometeu. Que nem cometeu, que deixou acontecer. Quem nos perdoa, não sabemos. Talvez seja assim: o sofrimento se junta, vai se juntando dentro da gente, lacerando, doendo, até que um dia a dor é tanta que nos pune. Então, ficamos perdoados. Puros, recomeçamos de alma lavada, passada a limpo como um exercício de escola.

(PMC = Paulo Mendes Campos, em A Aurora)


escrito por Paula 11:01 AM| |

 

Fechadura
Dor muda fala.
Espia só a fechadura -
Ouviu?
escrito por Paula 10:56 AM| |


Quarta-feira, Março 2

 
Com a palavra o poetinha.
Pela hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas...
* * *
Na hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas
Meu espírito te sentiu.
Ele te sentiu imensamente triste
Imensamente sem Deus
Na tragédia da carne desfeita.

Ele te quis, hora sem tempo
Porque tu eras a sua imagem, sem Deus e sem tempo.
Ele te amou
E te plasmou na visão da manhã e do dia
Na visão de todas as horas
Ó hora dolorosa e roxa das emoções silenciosas.


Tarde, de Vinícius de Moraes
escrito por Paula 4:46 PM| |

 
Canto de Xangô
(Baden Powell e Vinícius de Moraes)

Eu vim de bem longe
Eu vim, nem sei mais de onde é que eu vim
Sou filho de Rei
Muito lutei pra ser o que eu sou
Eu sou negro de cor
Mas tudo é só o amor em mim
Tudo é só o amor para mim
Xangô Agodô
Hoje é tempo de amor
Hoje é tempo de dor, em mim
Xangô Agodô

Salve, Xangô, meu Rei Senhor
Salve, meu Orixá
Tem sete cores sua cor
Sete dias para gente amar

Mas amar é sofrer
Mas amar é morrer de dor
Xangô meu Senhor, saravá!
Me faça sofrer
Ah, me faça morrer
Ah, me faça morrer de amar
Xangô, meu Senhor, saravá
Xangô Agodô
* * *

Eu cantarolando ontem no camarim do CCBB para cumprimentar a Monica Salmaso...
Expectativas confirmadas: ela mora no meu coração.

escrito por Paula 11:20 AM| |


Terça-feira, Março 1

 
O carioca

O tijucano tem características tão particulares que jamais poderia ser confundido com um ipanemense. O tijucano é o mais envolvido com os jogos no Maracanã, sempre por dentro dos campeonatos, mesmo que seja apenas para fugir do trânsito. A Tijuca é um estado de sítio, disse o Aldir Blanc. Um banguense em quase nada se assemelha a um morador de Laranjeiras. Passa muito tempo com a paisagem da Avenida Brasil. Contudo um Laranja, abastado pelo serviço do metrô, é bem diferente de um copacabanense, já que Laranjeiras não deixa de ser um subúrbio tendo como ponto de referência o mar, aí o Laranja é quase um interiorano. Nem tem cabelos dourados como um lebloniano. O pavunense só começou a frequentar a praia porque há pouco tempo o metrô começou a funcionar aos domingos. Sabe-se da existência de ótimos botecos na Pavuna. Morador de Santa Teresa vive um outro tempo, talvez seja o único a xingar motorista de ônibus por correr demais. Preservam o andar de bonde, e embora o santateresense seja geralmente conectado ao mundo cultural de todos os lados do morro, só ano passado ganhou uma livraria. Big Field. Nunca fui lá. Pra mim é um campo bem grande, ou então é só música de Jor Benjor. Madureira abriga três escolas de samba, um clube de futebol, muito botecos, mas fica distante do mar. Botafogo tem umas 10 salas de cinema. A pé à praia não vai, exceto caminhar às margens da Baía da Guanabara, mas isto até o niteroiense faz. O Barra, bem o barra, apesar do mar é um sujeito a parte. É que na Barra tem shopping, sabe? A Ilha ainda fica no Rio de Janeiro? Jacarepaguá é uma outra cidade, certo? No Horto tem oxigênio demais, imagine se um morador de São Cristovão sobreviveria sem período de adaptação? Centro, Bairro de Fátima, Glória, Catete, Cosme Velho, Flamengo, Humaitá, Lagoa, {salto} Meier, Engenho Novo, Engenho de Dentro,{tudo misturado!} Ramos, Todos os Santos, Cascadura, Oswaldo Cruz, Manguinhos, Abolição, Realengo, Rocha Miranda, Turiaçu, Campinho, Parada de Lucas, Cidade Alta, Vigário Geral, Acari, Coelho Neto, Colégio, Vaz Lobo, Irajá, Estácio, Saúde, Gamboa {salto de novo} Vidigal, São Conrado, Gávea, Rocinha.

Ser carioca: não sei bem elaborar uma definição coesa do ser carioca não. É tudo isso. Por vezes estereotipados, chegam a ser apenas caricatura para gringo ver, e se perdem. Foi visto um exemplar de carioca por aí, não lembro onde. Talvez seja melhor consultar um almanaque.

obs: Como falar no ser carioca sem esmiuçar Copacabana? Ato falho.
escrito por Paula 2:39 PM| |

 
Reflexos de Mar adentro
Assisti Mar adentro.
Com o assunto morte a vontade de questionar certas coisas.
Tenho vontade de saber se ele acha mesmo que é imortal, sabe?
Eu 26, ele 49. Uma hora o corpo cansa.
Acabo ligando, sempre ligo. Intenção de chamá-lo de babaca. Rículo, estúpido, imbecil.
Que este jeito dele viver como uma onda no mar é uma merda. Uma merda. Pro diabo Lulu e a onda.
Daí ele diz: "Alô", e eu desmorono, acabo murmurando qualquer outro nome carinhoso do meu jeito mesmo.
* * *
Já reparou, tem vozes ao telefone mais belas que o dono, às vezes até não combina?
A dele é uma das mais bonitas que já ouvi.


escrito por Paula 1:53 PM| |


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