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Quinta-feira, Setembro 23
Procurando
Foi num prédio perto da Avenida Presidente Vargas próximo a Avenida Passos onde passei o dia de hoje na sede da empresa em que trabalho. Onde, muito provavelmente, se a greve dos bancos durar, irei nos dias seguintes alternadamente, fazer rodízios em frente às máquinas disponíveis. Para não fazer nada. Mas isto nem chega a me incomodar. Ter greve, ou não ter greve, não muda muita coisa. É verdade que eu já me habituei às pequenas rotinas que desenvolvi em casa, é verdade também que continuo ¿trabalhando¿. Então, aquela felicidade de quem vê proveito para pegar um bronzeado ou uma onda na praia, não cheguei a desejar, embora os convites não me tentassem. Meia dúzia dos meus amigos do trabalho estão gastando os dias lá, jogando frescobol, ou batendo bolinha na areia, como gosta de falar um amigo, e tendo aulas na escolinha de surfe. Acho que eu não quero isto não. Na verdade nunca me perguntei se queria aprender a surfar. Posso me fazer esta pergunta outra hora? Agora ando tentando achar outras respostas.
Quando atravessei a PV em direção ao SAARA, percebi que os semáforos tinham um cronometrozinho para auxiliar na travessia dos pedestres. Consegui atravessar 3 pistas, faltou a última, vi o cronômetro chegar ao zero e não deu tempo, o farol começou a piscar. Todo tempo do mundo para chegar ao outro lado, ao encontro com o caçulinha. Desde os dias de férias no Rio e este tempo em greve tenho feito algumas incursões no SAARA. E foi num desses dias que teimei ter visto numa daquelas vitrines com salgados garrafas de guaraná caçula. Agora não me lembro onde foi, só sei que foi pro lado de cá da Passos. Naquela manhã conheci o desempregado. Eu estava olhando as mercadorias de uma loja, quando nos ¿conhecemos¿. Ele perguntou quem era a gerente, foi até ela, parou bem em frente, colocou uma das mãos nas cadeiras, a outra reta junto ao corpo que tombava mais para a esquerda, e pediu um emprego. Assim como quem pede esmola. Ao redor as pessoas da loja analisavam o rapazola com trejeitos de funkeiro de cima em baixo, enquanto a gerente dava instruções sobre um papel que deveria preencher: o currículo. Ele fez mais algumas perguntas sobre o tal de currículo e saiu. Saímos juntos, mas eu ainda pude ouvir a gerente dizendo que só deus podia com isto. Na loja seguinte os rapazes foram bem solidários, deu para perceber quando disseram que sabiam de uma outra loja que talvez pudesse estar precisando. Depois quando ele passou por mim num andar gingado, resolvi ainda o acompanhar mais um pouco. Foi quando esbarrei no caçula. Era ele, ou o guri. Talvez se eu o convidasse e conversasse com ele um pouco sobre como conseguir um emprego, dicas sobre o CV ou a forma de se vestir (pelo menos na apresentação, aquela lenga lenga sobre a primeira impressão ser a que fica), talvez, talvez o negrinho aceitasse tomar o caçula junto comigo e comer uma esfiha. ¿Fomos¿ numa outra loja, mas esta parecia também não precisar de ninguém. Acelerei o passo só um pouquinho e entrei rapidinho num armarinho para saber se tinha a tinta que eu procurava e o verniz, e quando voltei ele já era.
Disso tudo eu lembrei enqunto caminhava novamente por ali até em casa. É caminhando que eu penso pensar melhor na vida, e encontro respostas. O caminho é longo, se eu não desviar da rota, uns cinqüenta minutos com ladeira. É constante eu pensar na vida, tanto que se fosse verdade aquele verso(¿Se eu for pensar muito na vida morro cedo amor, meu peito é forte nele tenho acumulado tanta dor¿) do Nelson eu já teria morrido. Mas é justo quando eu mais preciso que eu não encontro concentração para isto. E ao invés de procurar as respostas mais imediatas para as minhas dúvidas(todas seríssimas. Com aquele aumento de grau que eu costumo dar), eu me ocupo a pensar na possibilidade de esbarrar no desempregado (espero que agora empregado!) e o caçula, e percorro agora a rua dos Inválidos atenta a tudo. Mas ainda com o intuito de re-pensar a vida. Não era por aqui o hotel mencionados em dois livros do Sabino. Como era o nome do Hotel? Aquele em que o personagem assiste a um suicídio, e é acusado do crime? Minha urgência do momento era descobrir o nome do raio do hotel. Foi quando me distraí olhando um menino e uma menina bem pequetitos, parecendo meio raquíticos disputando comigo a estreita calçada. Achei graça quando um mendigo carregando uns trapos mangou do menino, e ele arregalou os dois zoiões pra cima dele. Depois eles entraram no número 124, num corredor estreito e longo. Parecia um cortiço. Senti vontade de entrar, mas tive medo. E não vi nenhum propósito específico. Meu objetivo ainda era com a caminhada esparecer as idéias e pensar na vida, encontrar possíveis respostas. Depois ainda me distraí com o bicheiro, com a igreja Santo Antônio, com os botecos do caminho, e especificamente um onde parei e perguntei o preço do refrigerante. O atendente me perguntou qual eu queria. Quase respondi o caçula. Era esse que eu queria. ¿Qualquer um.¿ ¿Lata?¿ ¿É pode ser. Um light.¿ Tocava um Zeca Pagodinho, e até senti alguma vontade de sentar, e ficar. Não pelo Zeca, mas pelo ¿agito¿ do lugar. Qualquer coisa que me despertasse a curiosidade. Quase arrumei um casal para dividir companhia no caminho, mas eles andavam muito devagar e não consegui manter o mesmo ritmo. Na esquina com a Riachuelo um homem vendia LPs. Parei e separei alguns para levar. Desisti da Aracy por causa do preço. Não que não valesse o quanto custava. Pode ser que valha, é tudo tão relativo. Talvez valesse muito mais. Talvez para um colecionador valesse uma ninharia pelo que era. Para mim, que só estava de passagem e nem procurava por nada(exceto as minhas perguntas), e só queria continuar seguindo, custava caro os vinte reais. Por cinco eu levaria mesmo que fosse apenas para deixar encostado na estante.
Quando cheguei na Monte Alegre paniquei. É que a Monte Alegre é semi-deserta. Com certeza se houvesse um lugar para achar as minhas respostas, seria lá. Se é que eu conseguiria formular objetivamente as minhas perguntas. Desisti de andar, e senti certa melancolia querendo inundar tudo. Naquele ponto da rua não tem ônibus ou bonde para o alto e pegar um táxi para pagar menos de cinco reais eu não tinha coragem. Foi o que me fez cogitar subir de moto-taxi, caminhando na direção das motos e olhando bem firmemente nos olhos do piloto na esperança de arrancar dele qualquer palavra ou gesto que me convencesse a subir na moto. Ele me atravessou, acho que não viu em mim uma possível cliente. E foi em questão de segundos que troquei os cabelos balançando com o vento, fazendo misturar o cheiro do meu xampu de avelã com o suor dele bem próximo ao meu nariz(no que senti um certo nojinho) pelo conforto do ar condicionado e qualquer mendigaria de conversa no táxi do camarada do ponto de perto de casa. Quando enfiei a chave na porta percebi que não tinha como fugir: a casa vazia.
escrito por Paula 11:45 AM
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