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Sexta-feira, Agosto 6
Pais e filhos
Numa certa fase da minha infância eu tinha dificuldades para lembrar a fisionomia do meu pai. Me esforçava para reconstruir mentalmente aquele rosto moreno, óculos de armação metálica e cabelos cacheados, e só me vinha à cabeça o rosto risonho, e às vezes meio apatetado, do Daniel Azulay. Não posso negar que isto tenha sido bom, a imagem que construí foi de uma pessoa que está sempre feliz, seja isto verdade ou nem tanto assim. E o Azulay estava sempre lá em casa no canal 2-TVE. Éramos tão íntimos...
Não sei precisar se é falha de armazenamento da minha memória, ou se de fato existiu um grande vácuo entre nós compreendendo o período em que houve a separação, aos meus 2 anos, e a fase onde eu começo a ter algumas lembranças vagas de algum relacionamento mais estreito com ele e sua nova família, aos meus 8 anos. Considerando que desde o nosso nascimento até o período da infância em que temos dois ou três anos de idade não conseguimos recuperar via memória um pouco das nossas histórias, tenho um déficit memorial paterno de 8 anos. De fato coube a ele pouco espaço na minha infância, mas estamos de acordo que não era algo premeditado por ele, por minha minha mãe ou por mim, que até esta fase nada decidia, nada queria. Foi a vida quem quis tomar outros rumos mesmo, como um cavalo com rédeas. Temos pouca história juntos, mas vamos escrevendo assim mesmo, meio torta, um tanto incerta. Permitindo que as brechas nos sejam favoráveis.
Houve certa vez, há uns 8 anos atrás, um episódio que eu não tive capacidade de compreender tamanha importância por falta de maturidade. Ah, mas o que o tempo não faz, não é?(Isto não quer dizer que eu já seja madura.) O cenário era a Vista da Quinta, ali de frente para o laguinho pela primeira vez meu pai me fazia confidências. Ali quis ser, acima de tudo, um amigo. Eu diante daquilo que ele me segredava(coisas que nem eram realmente segredos para mim) transpareci frieza e naturalidade. Às vezes sou assim. Diante do maior dos segredos do mundo eu finjo apatia. Foi assim que reagi quando com algum atraso me contaram da morte do vovô Diamantino(pai do meu pai). Não briguei por terem me escondido, entendi o porquê, aceitei e fui. Chorei sozinha lembrando dos nossos momentos de cumplicidade, digasse de passagem existiram mais com ele que com o filho. Ele morava em uma rua paralela à minha, um prédio justo em frente ao ponto de ônibus onde eu embarcava e desembarcava para ir e voltar da escola, no térreo ficava a sua garagem-oficina onde despendia muitas horas do dia à consertar seu fusquinha azul-marinho, nunca visto por mim ganhando as ruas e avenidas do bairro. Seu zelo pelo carro era tal qual o de uma criança com sua primeira bicicleta. Logo criamos intimidade, quando eu descia do ônibus ele falava: ¿Passa aqui à tardinha para um café...¿. Eu ia até em casa, preparava um bolo, geralmente de cenoura com calda de chocolate cuja receita havia aprendido há pouco, e seguia.
O lugar era um cubículo fétido como costumam ser as oficinas mecânicas, um cartaz com uma mulher nua grudado na parede, um escudo do vasco da gama e muitas manchas de mão suja de graxa. O bolo comíamos (mesmo se solado) com café preparado anteriormente por ele e armazenado numa cafeteira térmica de plástico. Raramente a vó Zulmira aparecia por lá, e quando aparecia achava graça uma menina metida naquele ambiente. A vó era uma mulher bem vaidosa, autoritária e bem relacionada, não sei dizer ao certo se eles se davam bem. Eu só costumava visitar o vô, e na oficina. Mantendo o apartamento deles com um quê de místico. Chão da sala de mármore branco e preto, diagramado feito um tabuleiro de dama, um lustre de cristal enorme e um bar com garrafas de bebidas ao canto. O cômodo do apartamento que mais me intrigava era o quarto vazio de meu pai. Disponível para ele como se um dia voltasse. Já não morava ali há uns catorze anos, mas estava tudo lá intacto: o armário, a cama, a cômoda, os retratos e uma régua T não tão intacta assim, quebrada por mim(sem querer) em uma visita não usual. Era um andar alto de onde se podia ver todo o bairro que em muito se assemelhava à uma Brasília decadente, uma planície com casas, prédios não muito altos e alguns espaços vazios. As casas todas iguais: duas águas de telhado de amianto, jardim e quintal. Fácil era avistar a minha por causa das bananeiras, as mangueiras, o abacateiro e o coqueiro do quintal. Coincidência ou não, quando vovô morreu eu e a vó Zulmira acabamos por nos aproximar e nos entender, e logo fiquei íntima do apartamento. Já que a garagem agora era proibida e o fusca... o fusca vencera afinal, foi às ruas nas mãos de um comprador qualquer. Adeus cheiro de graxa. A vó cheirava a talco, ou quem sabe seria pó-de-arroz? À sua rotina eu já estava há muito habituada, por causa da tia-avó que morava conosco na casa da minha mãe, então seus costumes não me eram novidade: o Silvio Santos nos domingos, Haroldo de Andrade no rádio na hora do almoço, a cesta, pinico em baixo da cama, dentadura no copo com água e muitas manias adquiridas ao longo da vida. Ela gostava de se sentar na ponta da cama e me mostrar o álbum com fotos para que eu visse como fora bonita em sua mocidade. Contava alguns pedaços intercalados de histórias suas, e eu tentava juntar como podia buscando uma leitura de ordem cronológica, mas nunca me contou a que mais me interessava, e eu tinha uma vergonha enorme de lhe perguntar, intimidades demais. Esse tipo de coisa se cativa com tempo, em dado momento a pessoa decide por si mesma segredar suas peripécias de outras sub-vidas. E as da vovó não eram poucas... Uma mulher maranhense casada com um coronel por aquelas bandas com quem tinha família, e que se deixou apaixonar por marinheiro espanhol de passagem no Brasil. O meio não sei como se deu. Mas fugiram para o Rio, falsificaram documentos(inclusive o sobrenome Maia) e se casaram. O marinheiro não podia ter filhos, então adotaram.
* * *
De frente para Vista da Quinta, há oito anos atrás, ele me contou como foi a descoberta. De minha parte nenhuma reação emotiva, nenhum sorriso, lágrima, abraço. Nada. A escolha da Quinta se deu pelo fato de alguns anos antes, vô Diamantino ter feito o mesmo com ele numa tentativa de ajuda com seus problemas de alcoolismo, ¿o fundo do poço¿ como se acostumou a chamar. E agora eu ali, numa situação também complicada. Ele tinha uns 18 anos quando descobriu ser filho adotivo, uns 3 anos antes deu nascer. Foi por vizinhos na rua, e tornou-se alcoólatra. Eu não sabia: aquilo era uma revelação. Nunca quisera saber dos pais de verdade, porque dizia que pai e mãe são aqueles que criam. Irônico isto também, pois eu concordava, mas nunca me conformava.
escrito por Paula 3:39 PM
Segunda-feira, Agosto 2
Bolinha prateada da antena esquerda
Abaixo a bolinha prateada da antena esquerda. Aquela bolinha prateada do figurino de abelha de uma peça teatral da qual fui protagonista aos 6 anos de idade, e que está sendo considerada meu primeiro ato público, e assim sendo o inaugurador da minha carreira como uma pessoa tensa. Era o fato, até aquele momento, muito simples: uma pessoinha que se preocupava com a ausência da bolinha prateada da anteninha esquerda. Eu me encontrava, ansiosa, dentro da caixa aguardando o grande momento em que a abelha(personagem central) sairia da caixa e a fadinha(a amiga Roberta Kelly) lhe faria crescer uma outra asa no lado direito. Quando, por descuido meu, que não parava quieta dentro da caixa de papelão, deixei cair da anteninha a bolinha prateada: "O que eu faço? Cadê a Tia Carmem? Não posso sair da caixa sem a bolinha da antena!" Pânico. Desconcentração por causa da bolinha caída. Passei alguns minutos dentro da caixa pensando no que fazer, não tinha como recolocar a bolinha. Aos seis anos de idade, cursando o CA, eu me declarei uma pessoa sem capacidade para relaxar diante de imprevistos e por menores. Saí da caixa com a bolinha na mão e não desgrudei dela até que a Tia Carmem providenciasse uma solução prática para o caso da bolinha da antena: atirou-a para longe. Pronto!
Encarei a platéia com um medo enorme. Como poderiam aplaudir uma abelha com antena defeituosa? E enquanto as outras crianças se aproximavam para tirar foto comigo, eu me perguntava: como podia? Como podia elas se permitirem ser fotografadas ao lado de uma abelha deficiente, desantenada? As crianças sorriam, e me admiravam, e me abraçavam. Eu ainda sem entender. Só queria poder correr para a guarda da Tia Carmem e pedir desculpas pelo meu descuido, pelo meu erro, mas as outras crianças no caminho...
Seguir mesmo sem as bolinhas prateadas.

escrito por Paula 5:08 PM
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