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Sexta-feira, Julho 30
Bolo de laranja
Bolo quente saindo forno. Cheiro cítrico vindo da cozinha, ganhando a casa inteira. Hoje já não existe mais o costume de assar bolos, simplesmente por assar. Pode-se comprar na padaria por uns três reais um da vovó. Carinho de vó embrulhado num papel celofane e amarrado com fitinha cor de rosa. Três ovos, manteiga, farinha de trigo, fermento, suco de laranja e açúcar. Bater. O segredo está em bater a massa até atingir a consistência homogênea tão enfatizada pelas avós. Havia um tempo que podia-se medir a receptividade de um anfitrião pelo bolo da tarde, acompanhado do cafézinho fresco coado em filtro de pano. Hoje os filtros são outros, os bolos embalados. Mas vez por outra me pego numa vontade arrebatadora de assar um bolo e sujar as mãos. Usar todos aqueles utensílios por vezes obsoletos: o avental, a forma, o fósforo, o forno, a luva. Ah! Essa vontade de assar o bolo. A ansiedade em colocar o palitinho na massa e aguardar para que ele saia limpinho. Que o bolo não sole. Que não inche em demasia e perca as características na forma do que se parece com um bolo. Um bolo fofinho, plano, cheiroso... Ah! Entender as mãos das avós a fazer um bolo, eu agoro entendo. Sou cúmplice delas no chocolate quentinho, no bolo fofinho, na toalha na mão, no café da manhã, da tardinha. Dos biscoitos amanteigados, bombons de cereja aos cinquenta reais deixados sob a caixinha de madeira em cima da cômoda. Ai as avós. Ai esse sentimento que me invade e me leva ao bolo. E a abrir as janelas e deixar tudo do jeito que você gosta.
escrito por Paula 11:48 AM
Quarta-feira, Julho 28
Um sonho cor-de-rosa
[Não é só guaraná Jesus.]
Sexta-feira, oito horas da noite. Lá fora caía uma previsível chuvinha fina de inverno. Interrompendo a aula, toca alto um telefone. Hesito em atender. Atendo. Entre o pensar e o gesto, vejo no visor um nome, e então, a procura na memória por alguma associação ou lembrança que me levasse aquele nome? Um ex-ficante? Um amigo? Professor? Colega de trabalho? Paulo? Que Paulo? Eu não conheço nenhum Paulo, a não ser...mas este não pode ser. Mas se está escrito Paulo é porque eu conheço e gravei o telefone na memória do celular. Mais um toque. Mais outro. Paulo Maia. Que inusitado um telefonema dele, a uma horas desta, num dia destes. Senti algum conforto.
-Tudo bem Paulinha?
-Tudo!
-Estou te ligando para saber se você ainda está no centro da cidade. Eu estou aqui esperando a Mary num bar, e pensei em te ligar para um chope.
Alguma brecha entre nós. Tão aguardada há anos. Para repor os almoços que não aconteceram, os chopes que... os passeios que... as visitas... E agora, o curso. As pessoas que eu já havia programado de sair. A obrigação de ser feliz numa sexta-feira à noite.
* * *
De frente para ele, que resolveu trocar o vinho barato, pela cerveja de garrafa e me acompanhar, conversávamos como se fossemos amigos antigos, embora com pouca(quase nenhuma) intimidade, que não se viam há muito. Sem papos protocolares. Sem faculdade. Sem namorado. Sem trabalho. Sem cobranças. Conversávamos sobre o que duas pessoas que se vêem raramente e amigas de um bar qualquer da Rua do Riachuelo conversam. No canto da mesa, a mulher com cara de tédio enfrentava a seco um arroz à piamontese e outras gorduras perdoáveis. E apesar da mesa cheia, éramos eu e ele. Frente a frente conversando sobre teatro(que foi sua grande paixão) e a violência no Rio. Ele falou como sempre sobre casamento dando entender que não era bom. Falou, já de forma bêbada, sobre humilhações a que as mulheres submetem os homens. Ela, a mesma aparência redonda de grande fado, ainda ensaiava algum sorriso debochado, e a cada copo sendo abastecido nos lembrava da longa Avenida Brasil a que ainda encarariam. Seu olhar perdido pela janela, parecia procurar a razão pela qual não morriam asfixiados todos os filhos do primeiro casamento, principalmente aqueles não planejados, que se mantêm como intrusos. Ou qualquer pensamento mais ameno que apenas evitasse aqueles goles arrogantes. Enquanto isso, eu e ele apenas nos permitíamos deixar escapar além da borda.
* * *
Aguardei minha vida inteira, meus vinte e seis anos, por aquela descrição. Por aquele momento de um achado na memória. Uma lembrança minha enquanto filha, naqueles dois anos em que eu existi como tal. Narrava com detalhes a história de um assalto em 1980 ao carro que estava, uma Brasília, junto com o meu tio Célio(aquele que morreu a menos de um ano). Falava sobre como naquela época ocorriam as abordagens e os assaltos. A quantidade e a experiência dos ladrões. Eis que ele se lembra que havia mais alguém no carro, e diz: "Você estava no carro! Sentadinha atrás com um casaquinho cor-de-rosa.". O álcool subiu, o tempo parou, perdi a história. Fiquei ali no casaquinho cor-de-rosa, e balançando a cabeça como se ainda a história fizesse algum sentido. Todo o sentido. Ele repete: "Foi isso mesmo. Você estava com um casaquinho cor-de-rosa". Eu só conseguia enxergar a menininha que eu fui, branca e de grande cabeleira, vestida com um casaquinho cor-de-rosa. Talvez fosse um que eu já havia visto em fotografias. ¿Quando eu chegar em casa procuro a foto.¿, pensei. Talvez ele tenha visto a lágrima no canto do olho, e talvez tenha sido este o motivo que o fez cavar um pouco mais a passagem sobre a coadjuvante no banco de trás, repetindo a pequena parte do roteiro que lhe cabia. Eu sorri.
* * *
A Lapa está voltando a ser a Lapa cantarolava e tentava armazenar o mais fundo possível aquela sensação boa de ter sido um dia a menina do casaquinho cor-de-rosa. Ao meu lado, caminhava desde a sinuca, uma menina que tagarelava freneticamente sobre os perigos da Avenida Brasil àquela hora, e aconselhava a não a encarar, dormir por ali em algum hotel, qualquer custo ainda seria um custo menor que os causados pela ousadia de enfrentar a Brasil. Foi interrompida por um passante. Um traveco daqueles de parar o trânsito, cabelos castanhos longos, um vestido todo vermelho, deixando à mostra partes de seu corpo disforme. Pensei em cor-de-rosa e outras coisas. Quando voltei o assunto eram as puladas de grade para assistir shows no antigo circo voador. Na minha frente alguns se emocionavam ao lembrar de um outro circo. Queriam pular só pelo prazer barato de resgatar algo ido. Eu, mais uma vez, insistentemente, queria uma forma de não deixar escapar nem um pouquinho daquele sentimento, daquele êxtase que só eu usei.
* * *
- Ei! Ei! Você viu aquele travesti?
- Vi. O de rosa?
- É. Ele estava de casaco cor-de-rosa?
- É. Estava, porque?
Começo a rir compulsivamente e a chorar de soluçar. O motorista se assusta e quer saber se está tudo bem. "Tudo. Não se preocupe... é de felicidade.".
escrito por Paula 12:51 PM
Segunda-feira, Julho 19
As tintas
É questão de opção estar sempre pintando um novo aquarelado ou persisitir numa pintura a óleo, acumulando os pentimentos, fase após fase.
Derramaram-se todas as cores carregadas, as cores quentes. E agora a tinta, fraca, teima em não pegar na tela.É conhecer a técnica para as tintas certas.
escrito por Paula 2:55 PM
Ao final de um livro bom
Eu li um livro intenso. Daqueles que faz gargalhar e se derramar em lágrimas. Amar, e odiar. Felicidade, e tristeza. Eu li um livro que não cabe na estante de madeira do quarto. Eu li um livro que agradeço por ter lido, que me martirizo por ter lido. Um ótimo livro. Um péssimo livro. Agora guardei, sem pensar. Quero recolher das prateleiras. Quero distribuir exemplares. Quero atear fogo. Cheguei ao final. Era um romance. Um romance barato. Um romance antológico. Que tal fosse uma trilogia. Passar mais tempo com os personagens, não sentir a angústia de perder o contato que chega ao final de um livro bom. Eu não gosto de contos. Me diz um. Um célebre e conhecido popular personagem de conto? Agora eu quero contos. Pra me curar, pra me iludir, pra me molestar, pra me agredir. Passagem.
* * *
E se disser que é amor; se eu disser que é ódio; se eu disser que é tristeza; se eu disser que é festa; se eu disser que devaneio; se eu disser que é lucidez; se eu disser que é tresvario; se eu disser que é tormento; e se eu disser que é a salvação; se eu disser que é harmonia; e se eu disser que é desordem; se eu disser que é...
E se eu alegar que é mar, e que eu não nado; se eu alegar que é céu, e que eu não sei voar; se eu alegar que é abismo e que eu sofro de acrofobia; se eu alegar que é o inferno e eu tenho náuseas ao calor; se eu alegar que é luz, e eu sou cega; se eu alegar que...
Se eu contar que é lindo; Se eu contar que é nojento; se eu contar que é primoroso; se eu contar que é deformado; se eu contar que é concebível; se eu contar que é intangível; se eu contar que é delícia; se eu contar que é terrível; se eu contar que é completo; se eu contar que é mundano, se eu contar que é hipocondríaco...
Se eu supor que é acerto; se eu supor que é engano; se eu supor que consigo; se eu supor que consegue; se eu supor que aprendo; se eu supor que aprende; se eu supor que perdeu-se; se eu supor que já era; se eu supor...
Se eu acreditar no perdão; se eu acreditar em traições; se eu acreditar no poder; se eu acreditar em generosidade; se eu acreditar em serenidade; se acreditar em vingança; se eu acreditar em...
Se eu quiser me calar; se eu quiser desabafar; se eu quiser chorar; se eu quiser sorrir; se eu quiser me esconder; se eu quiser me achar; se eu quiser me perder; se eu quiser o perder; se quiser me agredir; se quiser me libertar; se quiser...
Se eu me culpar, me odiar, me amargurar, me angustiar, me blasfemar, me perjurar e me arrastar. Se eu te culpar, te odiar, te amargurar, te angustiar, te blasfemar, te perjurar e te arrastar.
Se eu me perdoar, me amar, me animar, me superar, me enfrentar, me enfeitiçar, me esclarecer, me examinar e se eu me curar. Se eu te perdoar, te amar, te animar, te superar, te enfrentar, te enfeitiçar, te esclarecer, te examinar e se eu te curar.
* * *
Se suportar o sol do sábado servil, que não desfaleça se um temporal inundar o vão dia de domingo.
(postado em 16 de julho)
escrito por Paula 1:36 PM
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